quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Tchaikovsky Symphony No.5 in E minor Op.64 .II.Adante II Parte

Simplesmente uma das sinfonias mais belas que já ouvi. Aliás, do primeiro CD que ganhei de música clássica quando pedi para minha mãe: "Mãe, quero Tchaikovski, compra para mim?".

Tinha só 12 anos.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Matilda - incompleto

Matilda grandes mentiras contava,

Que um suspirar, e um esbugalhar obrava;

Sua tia, que, desde sua tenra infância,

À verdade mantinha real instância,

Arriscou-se em Matilda acreditar:

A tentativa quase que a matou;

E assim o teria feito, se ela não

Houvesse tal vício antes descoberto.

Uma vez, sendo próximo o fim do dia,

Matilda, da brincadeira partia,

E percebendo que estava sozinha,

Ao telefone ligar foi, quietinha,

Chamar o pronto socorro bendito,

Pelo corpo de Bombeiros londrino.

Em uma hora a companhia imponente

Vinha de todos os lados em mente,

De Putney, Hackney Downs, e até de Bow.

Com Coragem e corações em voo,

A galope, na cidade a aiar:

“A casa da Matilda está a queimar!”


Estou com preguiça de terminar. Provavelmente haja alguns erros, mas depois eu completo. Digam o que acham. Tradução de Hilaire Belloc.

Father Brown (1954)

Há muito vinha procurando um filme antigo, que todo chestertoniano de carteirinha tem o dever e o direito de ver: Father Brown (ou The Detective), de 1954. Trata-se de uma adaptação cinematográfica do conto The Blue Cross.

Padre Brown é um padre extremamente diferente de todos os outros. Uma padre perceptivo, andarilho, espontâneo, que possui no pensamento de senso comum toda a base de sua sabedoria. E, pelo senso comum, consegue utilizar de forma realista na abordagem com os seres humanos, pecadores. Curiosamente o realismo o faz um excêntrico.

O filme começa com padre colocando uma certa quantidade de dinheiro dentro de um cofre; estava a recolocar o dinheiro que um certo indivíduo havia tentado surrupiar. Nisso foi flagrado pela polícia, pensando ser um criminoso disfarçado de clérigo para não ser apanhado. Passa uma noite na prisão; e antes de ser finalmente preso, ao entregar os óculos para o polícia, após comentar sobre seus problemas de visão, diz: "I often wonder whether all bats are really blind, any more than all lords drunk or all judges sober".

Nas outras cenas Father Brown aparece lutando para se defender; há uma ladrão famoso que roubava cruzes. E há o medo que se roube a Cruz de S. Agostinho de Cantuária, para ser transportado para a França para um encontro de padres. Daí se desenrola o resto.

Não vou continuar narrando, pois nem tenho o talento de transcrever scripts, nem muito menos o teor de Chesterton. Mas a história apresenta o seguinte: o verdadeiro cuidado com material existe, o material é importante. Mas jamais significa desculpa para se negligenciar do espiritual.

Assistam, recomendo veementente. Extremamente engraçado, e profundo.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Amor como causa formal da justificação, II


Afirma-se que o homem desde a Queda tem se colocado sob uma enorme carência, na qual todas as outras carências estão incluídas, a qual se suprimida, todas as bênçãos estão seguras; e as quais, de modo que ele entendia seu verdadeiro estado, sempre as desejou, em vão lutando para obtê-las. Ele é por natureza nascido no pecado, e, consequentemente, filho do castigo; e ele necessita renascer para retidão, de modo que ele possa se tornar filho de Deus. Ele necessita que se destrua o velho Adão, o velho corpo da morte original, e, por meio disso, a restauração para a luz da face de Deus. O que o fez odioso perante a Pureza Infinita, o que o expôs à morte eterna é a desobediência; retire a desobediência, e lhe será retirada a culpa, o perigo, a miséria, tudo aquilo que demanda ser retirado; e na medida em que lhe retira um, retira-lhe outro. Eis a nossa dificuldade; não meramente o sentimento de culpa, ou culpa em si mesma, mas aquilo que é causa de culpa e sentimento de culpa, conjuntamente. O homem tornou-se culpado ao se tornar pecador; não se tornará inocente, a não ser que se torne santo. Deus não pode, por sua própria Natureza, olhar com prazer e boa vontade uma criatura ímpia, ou justificar ou considerar como reto aquele que não é. Pureza de coração e espírito, obediência à palavra e às boas ações, somente isso pode ser aceitável a Deus; e isso, e somente isso pode constituir nossa justificação. É certo que não podemos obtê-la por nós mesmo; mas, se é para ser nosso, deve vir somente de Deus. Nós precisamos tão-somente da capacidade de satisfazer a Deus, ou ser reto; e isso é dom de Deus. Como seu dom, bons homens sempre o procuraram; como seu dom, foi-nos prometido sob a Lei; e como seu dom, foi obtido pelos convertidos ao Evangelho.

Até que o Evangelho viesse, com todos os seus dons da graça, havia contrariedade e inimizade entre a Lei Divina e o coração do homem; confrontavam-se, aquele, toda a luz, este, toda a corrupção. Corriam paralelamente, não se convergiam; a Lei detectando, condenando, aterrorizando, afetando somente para o pior; o coração humano secretamente sujeitando-se, mas não amando, não obedecendo. Consequentemente não podíamos agradar a Deus pelo que nós fizemos, pois éramos iníquos; por retidão se entende tanto obediência como ser aceitável. Nós precisávamos, portanto, uma justificação, ou fazer-nos retos; e isso pode nos ser concedido de duas maneiras: fazendo que nosso Criador nos dispense da obediência que a Lei requer, ou permitindo-nos cumpri-la. Em ambos, mas não de forma concebível, poderia nosso estado moral, cuja natureza é desagradável, tornar-se agradável a Deus, nossa concupiscência tornar-se retidão. De acordo com a doutrina que desejo expor, o remédio reside na última alternativa; não diminuindo a Lei, nem a abolindo, mas trazendo nossos corações a ela; preservando, trazendo o seu padrão e remodelando-os, em grande harmonia. Como as considerações do passado não podem ser literalmente desfeitas, uma dispensa ou perdão é tudo que nos pode ser dado; mas para o presente e o futuro, se um dom pode nos ser concedido, e se nós podemos antecipar o que deve ser, é por isso que devemos rezar – não para ter a Divina Lei removida, não para meramente nos obrigar a fazer o que não fazemos, não uma alteração nominal, mas para uma profunda entrada no nosso coração e espírito, juntas e medula, permeando-nos com verdadeira eficácia, e nos cobrindo inteiramente com sua completude; não uma alteração na abordagem de Deus para com nós, como uma pálida e descolorida alvorada de um dia de inverno, mas (se pudermos procurá-la) a posse Dele, de sua Graça substancial, para nos tocar e nos curar das raízes do mal, da fonte de nossa miséria, nosso coração amargo e sua corrupção inata. Como nós podemos conceber a benção de Deus como aquilo que é sagrado, todas as nossas noções de benção centram-se na santidade como fundação necessária. Santidade é a coisa, o estado interno, pela qual a bênção nos é recebida. Ele pode nos abençoar, pode nos amaldiçoar, de acordo com sua Misericórdia ou de acordo com nossos desertos; mas se Ele nos abençoa, com certeza isso se dá ao nos fazer santos; se Ele nos reputa retidão, é por nos fazer retos; se Ele nos justifica, é por renovação; se Ele nos reconcilia a si, tal não se dará pela aniquilação da Lei, mas por criar em nós novas vontades e novos poderes para sua observância.

Tradução feita por mim (provavelmente com os defeitos do amadorismo). A motivação da tradução foi por meio de uma discussão sobre justificação e graça que tive com a minha amiga Fernanda.

Da obra Lectures on the Doctrine of Justification, Lecture 2, II.

Beato Cardeal João Henrique Newman

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

The Lantern

"Do you see this lantern?" cried Syme in a terrible voice. "Do you see the cross carved on it, and the flame inside? You did not make it. You did not light it, Better men than you, men who could believe and obey, twisted the entrails of iron and preserved the legend of fire. There is not a street you walk on, there is not a thread you wear, that was not made as this lantern was, by denying your philosophy of dirt and rats. You can make nothing. You can only destroy. You will destroy mankind; you will destroy the world. Let that suffice you. Yet this one old Christian lantern you shall not destroy. It shall go where your empire of apes will never have the wit to find it."

Chapter XII: The Earth In Anarchy, The Man Who Was Thursday
By G.K. Chesterton

Quão moderno... E quão evangélico. São Mateus V ,15

Deve-se meditar a profundida dessa passagem do Chesterton, que reflete imediatamente a ideia do Evangelho. No livro ela se apresenta como algo comprado como velho, obsoleto, jogado ao relento, e, no entanto, torna-se forte, necessária, iluminando tudo quando está na escuridão. O homem pode destruir tudo: construções, ele mesmo, o mundo, mas jamais poderá destruir a lâmpada cristã, ou seja, o Evangelho.

Primeira coisa que vem a minha a mente é que: utilidade não é medida pela idade. O Evangelho, que tem agora 2000 anos, continua forte e vívido, alimentando o ser humano com sua luz.

Essa luz pode se apagar temporariamente, tal como uma cadeia colocada debaixo da cama. A Igreja pode morrer de velha, e sempre renascerá com a juventude e a força de sempre (tal ideia aparece no Homem Eterno de Chesterton).

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A referência a Deus


A vida é permeada por fatos, uns que são neutros, outros que nos entristecem e outros que nos alegram. Sabemos que é assim, e é evidente. Mas por que quando os dias tristes chegam, as aflições chegam, recorremos a Deus, e quando estamos felizes, muitas vezes esquecemos que todo o bem procede Dele? Muitos dizem que essa é uma das razões para nosso sofrimento: para que o sofrimento traga a lembrança de que todo o bem procede de Deus, e somente de Deus. Mas não se trata apenas disso. Devemos sempre nos referir a Deus para:

1) Possuir a a verdadeira Sabedoria. Não se pode atingir a Sabedoria sem reconhecer quem é seu autor. E nisso não digo somente às fontes inspiradas. Digo também até mesmo ao conhecimento científico. Quando os valores da Sabedoria quanto às virtudes, por exemplo, não são mantidos, mentimos para nós mesmos, pondo-se ao absurdo de indignarmos com o mundo por algo que nós mesmo inventamos. Pecamos ao pensar. Não podemos presumir que somos nós autores do bem e que a honra será nossa quando analisamos a realidade e buscamos a verdade. Nela encontraremos somente nosso ego, e jamais a verdadeira felicidade. Como diz a Imitação de Cristo (Livro 3, IX): "Filho, se desejas ser verdadeiramente feliz, eu devo ser o teu fim supremo e último. Com esta intenção purificar-se-á o teu afeto, que muitas vezes, se inclina para ti mesmo e para as criaturas."
2) Não nutrirmos esperanças falsas. Quantas vezes imaginamos nós que atingiremos uma situação na vida em que seremos sumamente felizes (argh!), sem que haja sofrimentos, discórdia, etc. Nossa época é muito disso, extremamente esperançosa na felicidade mundana, e, na mesma proporção, desesperada. Passageira. Caímos sem perceber nos mais estúpidos desesperos, quando simplesmente nos faltou a consciência do bem maior que é Deus, e que ele nos permite sofrer. A moderação é a recomendação, presente no livro do Eclesiástico 11,27: "No dia feliz não percas a recordação dos males, nem a recordação do bem no dia infeliz."
3) Não nos vangloriarmos. A vanglória é a usurpação de alguma glória ou virtude que não é nossa. Aquele que se vangloria se vê esvaziado, propenso ao sofrimento. A verdadeira glória é aquela que se dá mediante Deus, "por isso nada de bom deves atribuir a si mesmo, nem a homem algum a sua virtude, mas refere tudo a Deus, sem o qual nada tem o homem" (Imitação de Cristo, Livro 3, IX, 2).

Por causa da nossa concupiscência, tudo isso é difícil. A dificuldade de se reclinar e agradecer a Deus pelos seus benfazejos, como mostra o belíssimo quadro de Jean-François Millet, é, e sempre foi, enorme. Acreditamos que nós mesmos somos sempre suficientes, quando, na realidade, somos miseráveis, e todo o bem nos é emprestado. Sendo a própria existência um bem, que procede Deus, a ele devemos a glória até mesmo da nossa pequena existência.

"Esta é a verdade, que afugenta a vanglória. Onde reinam a graça celeste e a verdadeira caridade, já não haverá nenhuma inveja, nem aperto de coração, nem lugar para o amor próprio. Porque a caridade divina tudo vence e aumenta as forças da alma" (Imitação de Cristo, Livro 3, IX, 3).

domingo, 12 de dezembro de 2010

Dooyeweerd e erística



Fico surpreso às vezes por eu, sendo um católico fiel (tento ser, melhor dizendo), ter um bom repertório de leituras protestantes. Ao invés de fazer como alguns "tradicionalistas", eu trato de buscar nos livros de não-católicos cristãos, que possuem erros (muitas vezes escandalosos), informações enriquecedoras. A minha maior surpresa foi o filósofo, cujo cabelo lambido aparece agora na foto. Dooyeweerd, holandês, calvinista.

Esse filósofo, ostracizado pelo âmbito acadêmico, não só no Brasil, mas no mundo inteiro, possui uma teoria epistemológica que alguns poderiam chamar de maluca inicialmente, mas que depois de lida e considerada, é revolucionária. Ele diz que nossa razão inicia o ato de teorização em motivos suprateóricos, que não estão nem na realidade, nem nos produtos teóricos. Esses motivos, de caráter existencial, são chamados de "motivos religiosos fundamentais", e tratam de captar a realidade (que, quando pré-teórica, apresenta-se por modos de experiência, intrinsicamente conectados uns aos outros, irredutíveis), direcionando toda a teorização. O motivo humanístico é o dialético natureza-liberdade (ou mais bem, igualdade-liberdade), e é o que rege nosso mundo moderno. Nisso ele nega o dogma da liberdade da razão, para o escândalo dos racionalistas.

O complicado do filósofo é que de fato se entende o que diz, mas é difícil concordar, pois queremos, instintivamente, imaginar-nos livres, de cabeça aberta. Esse senhor diz o contrário: quem tem cabeça aberta percebe que tem cabeça fechada. E pior: quem não tem o motivo religioso fundamental bíblico (criação-queda-redenção), não possui estabilidade teórica, e ficará flutuando no liberdade-natureza, como se estivesse à deriva, indo uma hora para "natureza", outrora para "liberdade", absolutizando cada aspecto, numa eterna dialética.

A mais curiosa parte dessa filosofia é que ela pode permitir belas fugas/vitórias prévias em conversas, principalmente com aquelas pessoas que querem refutar toda sua ortodoxia pela sua religião. Ou seja, chatos moderninhos/istas.

- Ora, diz ele, você só é a favor/contra essas coisas por causa da sua religião!
- E você só por causa do seu motivo religioso fundamental!
- Huh?
- Estude Dooyeweerd.

Obviamente ela nega que todos os motivos religiosos fundamentais tenham a mesma validade. A filosofia de Dooyeweerd pode ser uma violenta ferramenta erística, de forma mais ou menos similiar como aqui foi apresentado. O risco de nos tornarmos "bad-asses" é grande, e devemos ser bem vigiados. Mesmo que tenhamos bons argumentos, deve-se compreender que a defesa da ortodoxia deve sempre ser pautada naquilo que ela tem de mais magnífico: a sua correspondência com a realidade, e, portanto, com a verdade. Apelar para o motivo religioso fundamental pode se tornar um sofisma bem forte, se mal colocado. Evitar a erística é eminentemente necessário.

A dificuldade de se vigiar no desespero contra o mundo moderno não nos pode desvirtuar nos debates, nem desvirtuar filosofias como essa, originais, belas, que devem ser colocadas a debate não como loucuras próprias de autoproclamados "reacionários", mas como a enorme loucura de se defender a verdade num mundo que a odeia. Tenhamos mente aberta para mostrar que, na verdade, ela é fechada, será fechada, e deve ser fechada, guardando dentro de si a Verdadeira Sabedoria.

Por que penso isso? Ora, é meu motivo religioso fundamental, ORTODOXO, VERDADEIRO.

CV!

PH